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As consequências inesperadas de celebridades que promovem a saúde

O “efeito Angelina Jolie” causou um aumento de testes genéticos desnecessários para o câncer de mama.
Por: LIFETIME Brasil

É uma boa ideia embarcar em uma expedição de caça genética para saber se você tem “alto risco” de desenvolver uma determinada doença?


Essa pergunta foi analisada novamente em agosto deste ano quando a Preventive Services Task Force dos EUA (USPSTF), grupo independente de cientistas que faz recomendações sobre exames médicos, emitiu uma advertência na qual dizia que o teste de BRCA para encontrar mutações genéticas associadas ao câncer de mama não deve ser procurado por mulheres com baixo risco e que elas têm poucas chances de se beneficiarem desse exame.


A USPSTF estava, sem dúvidas, respondendo aos efeitos Angelina, em referência à famosa atriz Angelina Jolie, que se submeteu a testes genéticos para mutações relacionados aos genes BRCA1 ou BRCA2, acreditando que poderia ter mais propensão a desenvolver o câncer de mama.


Vindo de uma família com um histórico mortal de câncer de mama, Jolie descobriu que estava na categoria de “mais alto risco” que a média e que seria beneficiada pelos exames. Em seguida, depois de saber que tinha genes ruins, ela passou por uma dupla mastectomia, a remoção cirúrgica e completa de ambos os seios, e escreveu sobre isso no jornal New York Times.


Isso não apenas fez com que a venda dos testes genéticos para o câncer de mama chegasse às alturas, mas também que legiões de mulheres fossem aos seus médicos e dissessem: “vou fazer a mesma coisa que ela”. O jornal britânico The Mirror informou que as instituições de caridade para o câncer de mama tiveram um “aumento de quatro vezes em relação à quantidade de mulheres pedindo a retirada de seus seios”.


Especialistas americanos, talvez respondendo a essa loucura, recomendaram que as mulheres com antecedentes familiares “que não se associam a um maior risco de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2”, definitivamente, não devem procurar orientação genética de rotina ou exames.


O fato de as mulheres estarem motivadas a perguntar sobre testes genéticos reflete nossa cultura de obsessão com celebridades, um medo grande do câncer de mama e uma atitude de “melhor prevenir do que remediar”, lema que guia muitas de nós.


É provável que a grande maioria dessas novas clientes que estão fazendo fila para o teste sejam classificadas como “saudáveis preocupadas” que têm pouca chance de carregar a mutação genética e, por isso, não terão nenhum benefício ao ser analisadas. Além disso, para elas, a remoção preventiva dos seus seios é uma opção extremamente imprudente.


“O Efeito Katie Couric”


Essa não é a primeira vez que as autoridades de saúde pública tomaram nota dos conselhos de prevenção de saúde vindos de celebridades. As pessoas do mundo televisivo também falam sobre o “efeito Katie Couric”, referindo-se ao enorme impacto que teve o caso de Couric, ao ter realizado uma colonoscopia ao vivo no Today Show.


Isso trouxe à tona a questão da detecção do câncer colorretal e mostrou, mais uma vez, que praticamente nada supera os apoios de famosos quando o assunto é fazer alarde sobre a saúde pública.


De fato, os assessores de saúde pública estudam a colonoscopia de Couric como um caso clássico de como fazer com que as pessoas se levantem de seu sofá e se dirijam aos seus médicos para fazer algo que outrora considerariam repugnante.


Os programas regulares de exame de cólon podem detectar e evitar uma lesão de cólon potencialmente fatal, e a promoção feita por Couric provavelmente contribuiu para algo bom: um aumento substancial no número de pessoas que pedem e passam por um exame de câncer colorretal.


No entanto, o conselho recente da USPSTF sobre a detecção genética e o câncer de mama foi preciso, e os números dizem tudo: de 2 a 3 mulheres, entre 1000, teriam as mesmas anomalias genéticas que Angelina Jolie. Para mulheres de “risco muito alto” de mutação potencialmente cancerígena nos genes BRCA, como as mulheres judaicas Ashkenazi, a taxa fica por volta de 2 a cada 100.


Os especialistas dizem que devem ser oferecidos testes genéticos às mulheres que possuem um ou mais membros da família com uma mutação conhecida e potencialmente prejudicial nos genes BRCA1 e BRCA. Todas as demais, que representa a maioria delas, devem evitar fazer o teste.


É difícil dizer se as recomendações realistas dadas em agosto por um grupo de estudiosos como a USPSTF podem competir com o poder de uma supercelebridade, a qual, vale lembrar, nunca pediu que outras pessoas fizessem o exame, mas compartilhou sua própria experiência e defendeu “decisões informadas”.


De qualquer forma, não deveríamos ficar deslumbradas demais com o magnetismo das celebridades nem deveríamos nos arriscar a fazer testes contando com a possibilidade remota de descobrirmos que fazemos parte de um pequeno grupo de “alto risco”.


Fonte: http://cimab.org/
Fonte de Imagem: Denis Makarenko / Shutterstock.com